HISTÓRIA

PARÓQUIA E O BAIRRO DE FÁTIMA

Em um novo espaço, ainda com muito mato e poucos fiéis, em terras além da travessia do Rio Poti, uma nova capelinha, simples, pequena, de palha, foi erguida em honra a Nossa Senhora de Fátima.

O nascimento da Igreja

Inspirados pela visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima que esteve em Teresina, vinda de Portugal, no ano de 1953, os moradores da área que atualmente forma o bairro de Fátima se uniram para construir uma capela em sua homenagem. Ali, oravam e faziam peregrinação, com uma réplica da imagem de Fátima, rezando o terço nas poucas residências então ali existentes. Lá pelos anos de 1955 ou 1956, uma vês por mês, o padre Isidoro Pires de Souza, então ecônomo do Seminário Menos e promotor vocacional da Arquidiocese, celebrava missas nessa capela. Passando também a organizar as primeiras aulas de catecismo para as crianças.
E foi assim que, um século depois do nascimento de Teresina, outra semente de fé surgiu como uma nova esperança de dias melhores.
Em 05 de maio de 1956, chega à Arquidiocese de Teresina o seu segundo Arcebispo: Dom Avelar Brandão Vilela, alagoano de Viçosa, transferido da Diocese de Petrolina, em Pernambuco, que inicia, com vigor, um novo modo de evangelização. Com o lema "Evangelizar e Humanizar", Dom Avelar faz a Igreja e a cidade ganharem um dinamismo diferente. Dedicando-se com muito zelo ao trabalho de amparo e assistência aos mais empobrecidos, passou a promover uma ação social vigorosa, imprimindo um cunho também social ao processo de evangelização na sua Arquidiocese. E foi assim, fortalecendo a ação evangelizadora e social da Igreja de Teresina, que a Igreja Católica logo chegou a essa área, ainda suburbana, que, mais tarde, seria o bairro e a Paróquia de Fátima.
A fé da população desse novo espaço que, aos poucos ia se urbanizando, chamou a atenção do novo Arcebispo que a incluiu em suas visitas de pastor, como sempre fazia em todos os bairros, passando a das grande apoio a essa população devota de Nossa Senhora de Fátima. E logo no ano seguinte à sua chegada a Teresina, em 1957, nomeou o Pe. Isidoro Pires, Assistente Eclesiástico de Fátima, o qual passou a celebrar missas regularmente nessa capela, com a assistência do próprio Dom Avelar.
Durante os períodos de novenas no mês de maio, o Arcebispo também apoiava a realização dos festejos, estimulando e promovendo formas de angariar recursos para a construção do prédio da Igreja. Antes da chegada da energia elétrica, o Pe. Isidoro tomava emprestado um transformador, na Escola Agrícola, ligava-o à bateria do seu carro "aero wilys" e assim iluminava a festa em Fátima.
Os leilões eram realizados com grande animação, atraindo muitas pessoas do centro da cidade e de outros bairros, entre elas, as mais diversas autoridades locais, além dos novos moradores da área, cada um dando a sua colaboração da forma que era possível.
Em tom profético, o Pe. Isidoro deixa o registro de seu modo de sentir a Igreja de Fátima, naquela época, com as seguintes palavras:
"Nem sei mais. Foi lá por 55 ou 56, e aquele pedaço de chão era apenas uma terrinha cortada por largas derrubadas, mal sulcadas por estreitas trilhas. Uma casinha aqui e acolá, meio escondidas pela folhagem da galharia espessa. Crianças rajadas e seminuas acorriam atraídas pela explosão da motocicleta amarela. Apareceu, para surpresa do rabiscador destas linhas, a silhueta esguia de mulheres não estranhas. Logo um pedido: Padre, venha dar catecismo aqui. Há muitas crianças. A gente nem vai na missa porque é longe. Venha.
Não se fez esperar a promessa. E o catecismo começou. Com um pedaço de trilho foi improvisado um sino. Mais tarde, uma missa por mês. Dom Avelar... missa dominical. E estava lançada a semente do evangelho nesta terrinha reservada à proteção da Virgem de Fátima. Uma capelinha tosca e desengonçada. Um posto médico. Um dentista. Uma pedra fundamental, e lá se foi.
Agora um big centro social e um bairro que cresce dia a dia. Uma gleba que se valoriza. Uma civilização que caminha.
FÁTIMA, uma esperança de amanhã, com luz elétrica e autolotação, com sincera devoção à padroeira e com jogatina clandestina; com terços e bebedeira; com o mal que se apresenta de mil maneiras, tentando sempre anular o bem.
Sei que há eternos refractários, mas continuo a vera grande esperança, sobretudo a grande esperança de que o bem é de si difuso e o mal por si mesmo se destrói."

(Fonte: ASA, Boletim nº 1. Teresina, 1961.)

 

O nascimento do Bairro

O bairro começou a se formar a partir de 1952, com a escolha de um local, na margem direita do rio Poti, para a construção de um clube para a prática de corrida de cavalos - embrião do Jóquei Clube do Piauí. Juntamente com o clube, surge o primeiro loteamento para residências urbanas nos terrenos em sua volta. Difundiu-se, a partir daí, a idéia de que morar na zona leste da cidade era símbolo de status social e econômico. O crescimento do bairro pôde ser evidenciado através da construção de residências elegantes e cada vez mais valorizadas pelos novos serviços que iam se instalando, fazendo ampliar rapidamente essa nova zona da cidade.
A ligação da nova cidade com a região leste era feita por uma ponte de madeira sobre o rio Poti, onde hoje está a ponte ferroviária, ligando os bairros São João e Cristo Rei. Com a queda dessa ponte na década de 40, a travessia do rio passou a ser feita por barcos e pontões. Na região se localizava o Porto dos Noivos (nome do atual bairro), onde hoje inicia a avenida João XXIII, ligando-se ao eixo da avenida Frei Serafim na margem esquerda desse rio. A travessia se deslocava provisoriamente mais para o norte, contornando as lagoas ciliares durante as cheias do rio, chegando à margem direita, no lugar onde hoje se inicia a avenida Rio Poti. Como essa travessia se dava "enquanto as lagoas não baixam", esse porto ficou conhecido como Porenquanto, dando origem ao bairro de mesmo nome.
Naquela época, o transito maior consistia na passagem de caminhões de carga que saíam ou chegavam à cidade e de pessoas que vinham nos seus "jeeps" passear nos sítios e fazendas, nas proximidades do rio. No período de vazante, o rio baixava tanto que era possível atravessar diretamente pelo seu leito, se carro ou mesmo a pé, como lembram saudosamente algumas pessoas. Os filhos de moradores do lado direito do rio, que estudavam nas escolas situadas no atual bairro Cabral, iam de barcos da zona leste em direção ao centro da cidade, utilizando o porto do Porenquanto, ainda durante a década de 60.
Assim, são considerados como fatores decisivos na dinamização desse novo espaço: a pavimentação da BR-343; a inauguração da ponte de concreto sobre o rio Poti, em 1957 (em ato solene pelo então presidente da República Juscelino Kubitschek) e o primeiro loteamento urbano iniciado com a instalação do Jóquei Clube. Esse contava com pistas para corridas de cavalos de raça (muitos trazidos de outros estados e até da Argentina), que constituíam um forma de lazer das famílias da elite teresinense. Na década de 1970, a instalação do campus da Universidade Federal do Piauí e o marketing imobiliário aumentaram a atração para a zona leste da cidade, transformada pelo imaginário popular em uma "área nobre", de clima americano e residências elegantes.
O primeiro loteamento dessa zona da cidade foi feito pelo Coronel Miranda, em terras ainda cobertas de matas, adquiridas do Dr. Marcolino Rio Lima. Correspondia a 44 quadras, traçadas a partir da construção da atual avenida Jóquei Clube e o local que mais tarde seria a avenida Nossa Senhora de Fátima. Logo depois, foi lançado o loteamento "Vila de Fátima", no espaço entre as atuais avenidas João XXIII, D. Severino e Ininga, também com 44 quadras, sendo os lotes do seu limite nordeste doados à Igreja pelo Sr. Marcolino, destinando-os à construção da Praça de Fátima e dos prédios das obras sociais, bem como do prédio da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Os loteamentos se seguiram, traçados pelo Sr. Nicanor Barreto, ampliando a área ocupada pelos bairros Jóquei Clube e Fátima, da BR-343 em direção ao Norte, enquanto outros se formavam dessa BR para o Sul da zona leste, a partir do bairro Noivos.
O traçado que corresponde à atual rua Angélica era o caminho de maior movimento, se estendendo até a estrada do telégrafo, a qual seguia para além das terras da fazenda (e da cerâmica) Ininga, de propriedade do Sr. Noé Fortes (hoje bairro Ininga). Por sua vez, a atual avenida Nossa Senhora de Fátima era ainda "uma estrada estreita e empoeirada no período seco e lamacenta no período chuvoso" que se iniciava na atual avenida João XXIII e terminava no espaço destinado à Praça de Fátima. As quadras destinadas à Igreja eram cercadas de forma contínua, sendo o espaço não construído utilizado como campo agrícola comunitário (com poço tubular e plantações de milho, feijão, etc.). No início da década de 70, com o deslocamento dos prédios das obras sociais construídos por Dom Avelar para a posição atual, é que as avenidas Nossa Senhora de Fátima e a Dom Severino foram construídas com o traçado atual, dinamizando o fluxo entre os novos bairros que iam surgindo, esticando a cidade na direção da zona leste.

 

Os Primeiros Padres

Antes da instalação da Paróquia, alguns padres vinham à Fátima como colaboradores, inicialmente celebrando missas quinzenalmente e depois, semanalmente, sempre aos domingos, quando orientavam também o catecismo. Entre esses padres, destacam-se, em momentos diferentes, o Pe. Isidoro Pires de Sousa e o Mons. Mateus Cortez Rufino. Esses padres moravam e trabalhavam no Seminário Menos, Sagrado Coração de Jesus (prédio do atual Centro Pastoral Paulo VI). Pe. Isidoro foi designado por D. Avelar para ser Assistente Eclesiástico da Igreja de Fátima, onde desenvolveu o seu trabalho de pastor até 1964. O segundo, Mons. Mateus, celebrava missas nessa Igreja muitas vezes, apoiando o trabalho pastoral, até a instalação da Paróquia e a indicação de seu primeiro Pároco, em 1969.

Os Primeiros Fiéis

Nos anos 50, poucas famílias habitavam o espaço dos novos bairros da zona leste de Teresina. E mesmo sendo a maioria de sua população formada por famílias simples e humildes, elas apoiavam e participavam dos trabalhos da nova Igreja. Muitas pessoas com melhores condições econômicas e intelectuais, também deram o seu apoio a essa obra da Arquidiocese, colaborando de várias formas, seja com a doação do terreno voluntário, tanto para construir os prédios onde funcionariam o Centro Social, o auditório e a Igreja, bem como para bem desenvolver ações religiosas e sociais.

Entre os profissionais liberais que apoiaram as primeiras atividades dessa Igreja nascente, podem ser destacados o Dr. José Jovita de Melo, que costumava acompanhar D. Avelar na supervisão das obras, tendo sido o primeiro médico do Posto de Saúde; o advogado Marcolino Rio Lima, que doou as terras para a Igreja e também para muitas pessoas pobres da comunidade; o médico Carlos Alves Araújo, primeiro diretor do Ginásio; as assistentes sociais Maria do Carmo Ribeiro Damasceno e Irmã Margarida da Divina Vítima; as professoras Maria de Lourdes Cury, Helena Nonato de Sousa Lima, dentre tantas outras pessoas que contribuíram voluntariamente, para o desenvolvimento das primeiras ações pastorais e sociais.
Dentre os menos aquinhoados economicamente, foram identificadas pessoas como o Sr. Francisco Sales Araújo, conhecido por "Chico Marcelino", um dos primeiros moradores da nova paróquia, que instalou sua residência nestas terras em 1954. Adquiriu a última quadra do lado direito, antes da praça atual, como pagamento pelo trabalho de venda de terrenos, estabelecendo aí o seu comércio na esquina (a maior mercearia do lugar), local que ainda hoje é ponto comercial, onde funciona uma farmácia. Chico Marcelino é considerado uma das pessoas de boa vontade desse novo espaço, sempre disponível para trabalhar para as obras da nova paróquia. A sua função era semelhante à de um "sacristão-administrador", cuidando zelosamente, ele e sua família, da limpeza e das chaves da Igreja de Fátima, do amplificador instalado na Praça e do campo agrícola comunitário. A sua esposa, hoje viúva e ainda residente nesse local, era uma das senhoras que participavam ativamente da vida religiosa, desde tempos da construção da capelinha, sempre presente nas peregrinações e celebrações. "Eu preparava com grande prazer os capões assados para os leilões e também as merendas para as visitas dos padres e de D. Avelar", lembra emocionada D. Maria.
Vale destacar que residiram no centro ou em outros bairros, não só os padres, mas grande parte das pessoas que colaboravam com o trabalho religioso e social dessa Igreja nos primeiros tempos. A população residente nessa área era constituída em sua maioria por pessoas simples, geralmente antigos moradores dos sítios e fazendas. Uma pesquisa direta nas residências, em 1960, identificou um população de 1.109 habitantes, em 188 residências, constituída por 432 adultos, 102 adolescentes e 475 crianças. Com relação às atividades dessa população, somente cerca de 50% dos adultos foram identificados como pertencentes à categoria "economicamente ativa". Suas atividades estavam representadas pelos seguintes profissionais: 55 funcionários públicos, 07 comerciantes, 18 pedreiros, 07 carroceiros, 75 lavradores, 16 trabalhadores braçais, 10 oleiros, 10 pescadores, 01 padeiro, 03 mecânicos, 02 barbeiros, 10 cozinheiras, 05 magarefes, 04 costureiras, 02 lavadeiras e 04 enfermeiras (ASA, 1961).

As Primeiras Atividades Religiosas

Antes das construção da Igreja de Fátima, as missas e os sacramentos eram celebrados na "Capelinha de Palha", depois no Teatro - hoje Auditório Dom Avelar, sendo transferidos depois para o terraço do Centro Social, onde hoje é a residência das Irmãs Sacramentinas.
Abaixo seguem as palavras de uma das grandes colaboradoras de Fátima, Maria de Lourdes Cury, sobre a Catequese:
"Não sei se devo começar falando sobre a catequese no bairro Nossa Senhora de Fátima ou se sobre aquele bairro que vi nascer, debaixo do idealismo vigoroso de Vossa Excelência Reverendíssima Dom Avelar e dos seus auxiliares, Padre Isidoro Pires de Sousa e Irmã Margarida da Divina Vítima.
Fátima não é uma novidade para mim, pois quando Dom Avelar fundou a Ação Social Arquidiocesana (ASA) fui convidada pela Irmã Margarida a tomar parte em uma das equipes que devia voltar as vistas para aquele bairro. Entretanto, não pude dar o que desejava, pois circunstâncias de vida e de trabalho obrigaram-me a deixar tão bonita causa de assistência.
Mas, como tudo passa na vida e tudo volta quando o tempo permite voltar, estou novamente em Fátima, porém desta vez no campo de catequese religiosa, integrando uma equipe de Filhas de Maria da Pia União do Colégio Sagrado Coração de Jesus.
Apesar de ter voltado à Fátima há bem poucos dias, pude observar que a equipe da catequese que vem atuando ali, há mais de um ano mais ou menos, não tem poupado sacrifícios para levar àquela gente a palavra de Deus, procurando também formar-lhe a alma e o coração com certos princípios delicados de formação religiosa e até mesmo social.
Junto à equipe de Filhas de Maria atuam também com muito zelo e idealismo dois jovens seminaristas, que Deus Nosso Senhor os abençoe e os faça verdadeiros apóstolos e seus fiéis representantes aqui na Terra.
Para dar maior esplendor à religião naquele bairro, a equipe tem um plano que, se Deus quiser, será levado a efeito, dentro de poucos dias: entronizar a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em todos os lares que prometerem rezar o terço, pelo menos nos dias do sábado, por ser esse dia de modo especial, consagrado a Virgem. Já contamos com algumas adesões e na certeza de que todo o bairro vai aderir, pedimos a Nossa Senhora Rainha do Mundo que derrame as suas graças sobre toda aquela gente, fortificando-a na fé, na esperança e na caridade, as três grandes virtudes que dão ao homem a alegria de viver.
A páscoa já foi realizada, contando-se com um número de 288 comungantes.
As aulas de catecismo funcionam regularmente, das 16 às 17 horas, todos os domingos. Além do catecismo para crianças, há ainda catecismo para adulto. Logo após as aulas as crianças e adultos assistem à celebração do Santo Sacrifício da Missa. A equipe faz também visitas domiciliares, cuja finalidade é levar aos lares a sua visita de cordialidade e conforto de uma palavra quando se faz necessário.
Feliz é aquele proporciona a cada pessoa que passa pelo seu caminho, uma parcela, por pequena que seja, de conforto moral e espiritual. Mais feliz ainda, quando esta parcela se reveste de algo sobrenatural e divino.
Eis em ligeiros traços o que é a vida de Fátima no campo da catequese, campo tão cheio de encanto, tão cheio de vida, tão cheio de encanto, tão cheio de Deus. Os Catequistas eram: Dulcila Matos, Elza Marques, Inésia Lima, Maria de Lourdes Cury, José Barros e o Seminarista José Paulo Coelho".


(Fonte: ASA, Boletim nº 1, 1961)